Tripulação acerta o mussulo para travessia oceânica

Mussulo no contra-vento /  Foto: Aline Bassi / BalaioMussulo no contra-vento / Foto: Aline Bassi / Balaio

Rio de Janeiro - A disputa da Copa Suzuki Jimny, em uma das raias mais atrativas da América do Sul, permite aos velejadores estabelecer objetivos que vão além do cobiçado título da competição. Atletas como André Fonseca, Fábio Pillar, Samuel Albrecht e Maurício Santa Cruz estão em campanha olímpica ou pan-americana, enquanto a tripulação do Kanibal se prepara para a Buenos Aires-Rio e a do Mussulo, querendo ir ainda mais longe, aproveita as velejadas em Ilhabela para desenvolver os acertos que serão levados para a Regata Cape to Rio, entre Cape Town, na África do Sul, e Rio de Janeiro. 

A 14ª edição da mais longa prova de oceano do hemisfério sul, larga na Cidade do Cabo no próximo dia 4 de janeiro. A ideia de inscrever o Mussulo partiu do comandante José Guilherme Caldas, 52 anos, depois de uma conversa com velejadores compatriotas angolanos. "É um sonho, um projeto visionário para favorecer o desenvolvimento da vela em Angola. Luanda (a capital) sempre esteve voltada para esse esporte. Era lá que Portugal realizava seus campeonatos mundiais de várias classes". 
 
O barco, um Bavaria 55, está competindo na Copa Suzuki Jimny com as cores de Angola. A bandeira rubro-negra está sempre tremulando na popa durante as manobras no canal de São Sebastião. Na Cape to Rio o Mussulo representará o Yacht Club de Ilhabela (YCI) e o Clube Naval de Angola, o segundo mais antigo da África. A tripulação será binacional, formada por cinco angolanos e quatro brasileiros. 
 
A regata que atravessa o Atlântico Sul é promovida desde 1971 pelo Royal Cape Yacht Club, com um percurso de 3.500 milhas, cerca de 6.400 km em linha reta. A distância, porém, costuma ficar bem mais longa porque o regime de ventos favorece os barcos que derivam para o norte, enquanto a opção por um trajeto retilíneo entre as duas cidades pode significar o ‘encalhe’ em um buraco de vento. Na última edição, em 2011, quatro brasileiros formados no Projeto Grael, incluindo Samuel Gonçalves, o atual proeiro de Lars Grael na classe Star, tripularam o barco vencedor, o sul-africano City of Cape Town, com 17 dias de navegação. 
 
A campanha do Mussulo está sendo patrocinada por quatro empresas angolanas: Sonangol (refinaria de petróleo), BIC (banco angolano que está trazendo filial para o Brasil), Sistec (apoio na comunicação) e Angola Cabos (responsável pela instalação de fibra ótica entre Angola e Brasil). Na Copa Suzuki Jimny, o veleiro que estampa no casco branco a inscrição ‘Team Angola’, chegou a liderar a terceira etapa, finalizada com a segunda colocação na classe RGS A. 
 
A vela no sangue
 
O comandante Guilherme teve o primeiro contato com a vela aos 11 anos na Ilha de Mussulo, próxima a Luanda, onde praticava na classe Dabshick, uma prancha com duas velas. O contato com o esporte foi interrompido de forma súbita e dramática, em 1975, quando aportou com a família no Rio de Janeiro para fugir da guerra civil em Angola. 
 
Dois anos mais tarde, como sócio-atleta do Iate Clube do Espírito Santo, competiu nas classes Laser e Snipe. Parou de velejar para estudar medicina e seguir a mesma profissão do pai. Em 1999 comprou seu primeiro barco de oceano, em Santos. Retornou ao país natal em 2005 realizando a travessia Rio-Luanda com o Mussulo anterior, um Fast 395, no trajeto inverso que fizera 30 anos antes em rota de fuga. Foram 31 dias de navegação. "Reivindicamos o registro da marca no Guinness Book. Com certeza fomos bem mais rápidos do que na última travessia feita à vela pelos portugueses nesse mesmo trajeto por volta de 1730", diverte-se o comandante. 
 
A vocação para os desafios levou Guilherme a trazer sozinho o atual Mussulo, fabricado na Alemanha, de Lisboa a Ilhabela, em 2011. A viagem solitária durou 21 dias, dois a mais do que o tempo estimado para a conclusão da Cape to Rio. Conciliando de forma equilibrada a medicina e a vela, em terra firme a navegação do doutor Guilherme Caldas também tem de ser muito precisa. "Minha missão é tratar do cérebro sem abrir o paciente. Posso dizer que tenho de navegar pelas artérias e veias", afirma o neurorradiologista do Hospital das Clínicas, Sírio Libanês e professor da USP. 
 
História do YCI a bordo
 
O desempenho do Mussulo na travessia entre África e Brasil passará diretamente pelas mãos do brasileiro Carlos Eduardo Maia, um dos primeiros capitães de vela do Yacht Club de Ilhabela e também um dos responsáveis pelo resgate da história da Rolex Ilhabela Sailing Week, trazida à tona neste ano de forma inédita durante a 40ª edição do evento. Maia terá a função de ‘sail trimmer’, regulador de velas. 
 
"Nossos resultados na Suzuki mostram que estamos no caminho certo. Estamos evoluindo. Já corrigimos vários problemas e agora teremos um teste fundamental na Recife-Noronha, em outubro. O Mussulo é um barco de cruzeiro, estamos fazendo os ajustes dentro do possível. Por ser pesado, não se comporta bem com vento abaixo de 12 nós", analisa Maia. 
 
O barco está praticamente pronto, com velas novas. O dessalinizador já está testado e o próximo passo será a instalação dos equipamentos de internet. "A preocupação agora é com a convivência a bordo entre pessoas que não se conhecem, mas essa é uma tarefa para o Zé (Guilherme), que tem uma capacidade grande de agregar", assim espera Maia. A ideia é de se formar três grupos com um timoneiro, um trimmer e um proeiro em cada um deles, para um revezamento em turnos de três ou quatro horas. 
 
Equilíbrio na terceira etapa
 
O Mussulo ficou com a segunda colocação na terceira etapa da Copa Suzuki Jimny com 13 pontos perdidos, mesma pontuação do Maria Preta. O vencedor da classe RGS A foi o Jazz, com 12 pontos. Os demais ganhadores na RGS foram Asbar (B), Ariel (C) e Boccalupo (Cruiser). O Tangaroa venceu na ORC, seguido por Lexus/Chroma e Orson/Mapfre. O Loyal se recuperou nas últimas regatas para ganhar a C30, com dois pontos de vantagem sobre o Barracuda. O Caiçara/Porshe ficou em terceiro. O equilíbrio também marcou a HPE e o Fit to Fly venceu com 20 pontos. O Ginga somou 21 e o Relaxa/ Next Caixa, 22. 

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