Entrevistas

Emily Lima: "A categoria voltou à estaca zero"

Demitida pela CBF, Emily Lima, ex-treinadora da seleção feminina de futebol, fala à Tpm: ”A categoria voltou à estaca zero”. Em protesto, três jogadoras já anunciaram que não jogam mais pela equipe / Foto: Lucas Figueiredo/CBF/DivulgaçãODemitida pela CBF, Emily Lima, ex-treinadora da seleção feminina de futebol, fala à Tpm: ”A categoria voltou à estaca zero”. Em protesto, três jogadoras já anunciaram que não jogam mais pela equipe / Foto: Lucas Figueiredo/CBF/DivulgaçãO
 
Emily Lima: "A categoria voltou à estaca zero"
 
“Espero estar abrindo portas para outras mulheres treinadoras”, disse Emily Lima, a ex-técnica da seleção brasileira de futebol feminino e primeira mulher a assumir o posto. A declaração aconteceu durante a Casa Tpm deste ano, dia 27 de agosto.
 
Na ocasião, ela ainda ocupava seu cargo na Confederação Brasileira de Futebol. Menos de um mês depois, no dia 22 de setembro, Emily recebeu a notícia de que seria desligada. A justificativa? Números. Ela perdeu duas partidas importantes em jogos amistosos contra a Austrália. Quem ocupou a vaga foi Oswaldo Alvarez, o Vadão, justamente seu antecessor. Mais uma vez, um treinador homem para um time de mulheres.
 
Ainda no evento, Emily recordou que antes de assumir o cargo, deixou claro para o presidente da Confederação que só aceitaria se fosse à sua maneira. E disse: “Não vejo diferença entre homem e mulher como treinador. Mas o homem muitas vezes não tem sensibilidade, acha que manda nas jogadoras. Essa é a diferença”. Se as portas pareciam fechadas para as mulheres dentro do esporte, a demissão da treinadora reforçou os obstáculos para que a situação não evolua.
 
O jeito colaborativo de trabalhar conquistou as jogadoras e, após a decisão da CBF, algumas delas resolveram boicotar a entidade. A primeira a se pronunciar foi a atacante Cristiane, no dia 27 de setembro. Ela publicou um vídeo em seu Instagram anunciando a decisão como a mais difícil de sua vida profissional. “Hoje se encerra meu ciclo na seleção brasileira. É muito triste para mim saber que eu não vou jogar meu último Pan-Americano, minha última Olimpíada, minha última Copa do Mundo. É difícil porque era meu sonho poder colocar a medalha no peito e ajudar a modalidade de alguma maneira“, desabafou a atacante. Em seguida foi a vez da meio-campista Fran e a lateral Rosana aposentarem a camisa da seleção.
 
A Confederação declarou, em nota, que "a decisão de algumas jogadoras em não atuar mais pela seleção feminina é uma questão de ordem pessoal e deve ser respeitada". Além disso, desejou sucesso na próxima jornada de Emily. "São muitos anos fingindo que está tudo bem, ouvindo cobranças de “como vocês são amarelonas” da própria imprensa, cobrança da CBF... Sendo que o mínimo, que seria suporte, elas acabam não tendo. Infelizmente não temos um coordenador que brigue por elas", disse a treinadora em alusão a Marco Aurélio Cunha, que, em participação no Fox Sports, declarou que "o machismo já afetou muito, mas hoje muito menos; o preconceito às vezes vem um pouco do lado de lá, do lado delas”. Para Emily, o futebol feminino hoje volta à estaca zero. Leia entrevista completa abaixo.
 
Como foi o seu desligamento da CBF? Você foi pega de surpresa?
Então, não acho que fui pega de surpresa. Eu já esperava que isso poderia acontecer mais cedo ou mais tarde devido à má comunicação que eu tinha com o coordenador [Marco Aurélio Cunha]. Não tínhamos um diálogo muito próximo e as ideias eram diferentes. Mas, por mais que eu já esperasse, não achava que seria nesse momento. Não sabia que o ciclo seria tão curto.
 
Como você se sentiu nessa situação?
Para mim, não foi uma perda. Quem perde é o futebol feminino, é a seleção brasileira. Eu estou aprendendo com tudo isso. Fui com a melhor das intenções, para trabalhar de verdade, pra mostrar um trabalho mais moderno dentro da categoria, como a gente já vivencia fora do país. Mas percebi que para o coordenador trabalhar demais era um problema. Quando reconheci isso, me vi no lugar errado, trabalhando com a pessoa errada. Era difícil a convivência. Aprendi muito, mas saio mais forte do que entrei.
 
A demissão veio menos de um ano depois de você assumir o cargo. Acha que isso aconteceu por você ser mulher? 
Não quero pensar que eles foram tão injustos a ponto de pensar nisso. Eu ainda acredito que teve muita influência do coordenador e, pelas palavras do presidente, algumas pessoas influentes para a decisão dele também se incomodavam comigo. Acabei incomodando as pessoas na CBF e num balanço geral a questão da minha permanência no cargo foi negativa na hora da decisão do presidente.
 
Por que você incomodou as pessoas?
Por tudo que eu vinha fazendo lá dentro. O jeito de ajudar as pessoas... Eu ia no departamento de competições tentar viabilizar as datas para a seleção feminina poder participar de jogos... São vários os fatores. Eu não estava na CBF por conta de espaço ou de dinheiro, eu estava lá para fazer as coisas acontecerem com o futebol feminino no país. Para tentar ajudar e contribuir com a modalidade e com a seleção brasileira. Tentar fazer um trabalho integrado. Queria fazer algo que eu sempre acreditei que daria para fazer e nunca tinha tido a oportunidade. Quando eu assumi como treinadora achei que fosse a hora de fazer isso. E tentei, conseguimos fazer bastante coisa, mas esse ciclo foi quebrado.
 
Você acha ideal termos um homem como treinador da seleção feminina?
Se é um treinador homem que evidencia o futebol feminino, ele vai brigar pela modalidade. Acredito eu, né? O problema, repito, está na coordenação da seleção brasileira hoje.
 
A volta do Vadão pra você é um retrocesso?
Eu seria muito injusta de dizer que um amigo de trabalho traz retrocesso para a seleção. Mas ele teve o momento dele, disputou mundial e não ganhou. A CBF poderia procurar uma nova filosofia de trabalho, porque essa não deu certo. Já que não me deixou apresentar a nossa filosofia de trabalho, era a hora de buscar pessoas novas para colocarem isso em prática.
 
A atacante Cristiane comunicou que deixará de defender a equipe nacional. Depois, foi a vez da Francielle e da Rosana fazerem o mesmo e começarem esse movimento de boicote. O que isso significa pra você?
Por um lado, enxergo de maneira muito negativa para a modalidade. A gente está perdendo forças nesse sentido, mas acho que chegou o momento de elas se pronunciarem, sim. São muitos anos fingindo que está tudo bem, ouvindo cobranças de “como vocês são amarelonas” da própria imprensa, cobrança da CBF... Sendo que o mínimo, que seria suporte, elas acabam não tendo. Infelizmente não temos um coordenador que brigue por elas. Por isso foi o momento adequado para que elas fizessem isso. Pena que nem todas vão ter a mesma coragem. Elas acabam se escondendo atrás de um status que é estar na seleção brasileira.
 
Como você enxerga a seleção neste momento?
Pra ser bem sincera, hoje a gente está na estaca zero. Depois de tudo isso que aconteceu, voltamos à estaca zero.
 
E o que precisa ser feito para sair desse lugar?
Colocar pessoas que saibam da modalidade nos cargos que necessitam estar para que essa mudança aconteça, para que a seleção ganhe o valor que merece. Eu sempre vou estar do lado das meninas e vou torcer pra que elas consigam ocupar o lugar que merecem.
 
E quais seus próximos passos agora?
Agora é retornar pra casa, encontrar com a minha família. Hoje [29 de setembro] é meu aniversário, quero curtir com meus amigos. São pessoas que sempre estão disponíveis pra mim, nos bons e nos maus momentos. Também quero estudar, com meu empresário, algumas possibilidades. A vida tem que seguir. Preciso pensar em mim como Emily agora, como a pessoa que sou antes da profissão.
 

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